domingo, 7 de dezembro de 2025

Eu e você!

Eu, tinto; 

você, rosé. 

Se minto; 

você me vê. 


Eu, maio; 

você, domingo. 

Se caio; 

não vingo. 


Eu luto. 

Você vence. 

Se refuto; 

você convence. 


Eu poucos. 

Você tantos. 

Se louco:

em prantos. 


Eu apego. 

Você liberdade. 

Se aconchego; 

você me invade. 


Eu aqui,

você agora. 

Se fico. 

Você vai embora. 


Eu noite. 

Você dia. 

Se abraço. 

Você irradia.


Eu sempre. 

Você também. 

Se há poesia. 

Há amor e além. 





quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Inconsciente

Não sei quanta vida tenho

Nem quanto de mim é

Engano.

Nas vergas das dores me atenho,

Em busca de um avanço ferrenho,

Entre ópios e conflitos

Mundanos.

 

Aqui e ali, há tropeços,

Há dores, lamentos e

Prantos.

A sutil sensação de recomeço

Em busca do que desconheço,

Do que em mim é encanto.

 

Palavras são como um rio,

Um fluxo intermitente.

Um pedaço do desafio,

Que na ausência de extravio,

Esconde-se no

Inconsciente.. 






sábado, 28 de junho de 2025

O amor

Por esses caminhos travosos
Longe de ti me ancorei
os ventos sopraram ruidosos
e por nossos crimes dolosos
sozinho as penas paguei.

O amor é mesmo um mistério
um sopro de fugaz alento
é uma entrega sem critério
faz da existência um império
e do ato de amar, um fundamento.

Quando a estrada não é o destino
Culpa é verdade que apunhala
E esse amor que morreu paulatino
chora, à espera de um sopro divino
nesse coração que não se abala.

domingo, 18 de maio de 2025

Ladainha de todos os antros

Carochas!

Cativos nesta armadura gangrenosa. 

Sentenciados a morrer de alegria, à procura do inalcançável. 

Padecedores de amores reais e sonhadores de amores possíveis. 

Arruinados em meio à abundância das dores pulsantes. 

Despidos de vida e vestidos de morte. 

Moribundos em face da filosofia, chaga irremediável, mãe solo, tão banal quanto impossível. 

 

Porcos! 

Impressionados ante as profundas cavidades na alma dos seres. 

Asquerosos em face de desejos que suprimem desejos. 

Retalhadores de verdades e trituradores do que resta do ato primordial. 

Feridas como paços. 

Vidas acres. 

Tormentas alucinatórias.

Gritos de angústia em vazios internos. 

 

Alcatrazes!

Buscadores naufragados em suas próprias inquietações. 

Sádicos travestidos de propósito. 

Entidades imbuídas de dolo. 

Carcomedores de afeto. 

Vilipendiadores dos ânimos aquietados. 

 

Carniceiros!

Narcisos em pele de Virgílio. 

Judas em Jó. 

Semeadores de morbo. 

Sombras impiedosas. 

Estertores do medo.

 

Hostis militantes de auguras nefastas, nascidos da ânsia do pensar e cônscios do ser, com intenções do não ser, deixai-nos na infinita paz da ignorância, na mais perfeita materialidade da vida vil.

Amém!







terça-feira, 19 de novembro de 2024

Poema egomórfico

Sou poesia pura
sou deleite, sou ternura
sou aconchego e amor.
Sou fragmentos de um sorriso.
inaugurando este poema impreciso
num grito ensurdecedor.

Nesse vazio transbordante
nessa angústia sufocante
na memória ardente dessa dor.
Nas vírgulas dessa poesia
mais que expressão de agonia
um mundo inteiro de dissabor

Ainda em palavras e métricas
mensagens pouco poéticas
de emoções à deriva.
Versos impronunciáveis
composições imprestáveis
e uma semântica nociva.

Enclausurando o poema
numa tristeza suprema
que à vida faz corroer.
Gritos ecoam ao acaso
pelas dores que extravaso
por não saber escrever.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Que pena!

No opaco espelho das escolhas que não pudemos realizar, escorrem sangue e melancolia.
Entremeadas de medo, as curvas dos caminhos que nos distanciam de casa se acentuam em ângulos ilusórios: pormenores de uma luminosidade intermitente em suspiros de angústia pelas palavras que não conseguimos proferir, ainda que um grito de auto-determinação fosse premente.

Se até agora ouvimos os cães da rua ladrarem em nossa memória de afetos, é porque estivemos vagando por madrugadas inteiras com medo do amanhecer. Mas ele veio. E quando ele chegou, o sono não nos abraçou. Na vigília sangramos ainda mais.  

Com o tempo, compreendemos que a melhor história é aquela sobrescrita nas páginas de nosso prefácio para ser rasgada depois. E em não havendo perdão para os que se recusam a viver o que lhes coube, a pena é viver novamente a mesma vida até que a forja do tempo se arrefeça no vazio cósmico. 

Não há o que fazer quando nada se faz. Porque o não-fazer é também um desfazer-se. Quando se descobre que a consciência é um tipo especial de suicídio, somos arrebatados pela atroz verdade de que há muito já morremos. E quando, de volta ao espelho de nossas análises mais genuínas, não conseguirmos mais nos reconhecer diante da opacidade dos medos que nos imobilizaram, pronunciaremos as palavras mais dolorosas: "Que pena!". 

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Quase-morte

Nasci com uma doença congênita incurável. Todos os dias, padeço as dores dessa chaga infame. Condenado, sigo moribundo até o meu último estertor. 

Estarei livre e são, quando na alcova das longas noites de minha permanente agonia me curar, em definitivo, dessa enfermidade cruel chamada "romantismo".